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“Estamos construindo uma família e não importa como ela é formada, família é onde tem amor”

Conheça a história de Jessika e Mari, que casaram no último dia 4, em Anchieta. Na opinião delas, o maior obstáculo na sociedade é de que as pessoas reconheçam o amor, o companheirismo e deixem de ver apenas a questão da sexualidade no casamento homoafetivo

Anchieta - 24/11/2017 09:26 (atualizado em 24/11/2017 09:39)

Por Angie Schenkel

Conteúdo colaborativo


Ter uma companheira para a vida toda, formar uma família, viver plenamente um amor, ter seus direitos protegidos. As mesmas razões que levam qualquer casal a querer oficializar a relação, também foram as que motivaram a advogada Jessika Hoppe, 25 anos, e a educadora física Mari Swirke, 29 anos, a se casar. Afinal, porque seria diferente? 

O amor das duas é antigo. O primeiro contato foi há sete anos, a caminho da faculdade. Trocaram algumas palavras e nada mais, mas naquela mesma noite, Mari e Jessika se encontraram novamente e, de longe, trocaram olhares. Pelas redes sociais, a conversa foi avançando e o sentimento de identificação ficando cada vez mais forte. Jessika terminou o relacionamento com o namorado e as duas ficaram juntas por mais de um ano. Tudo em segredo, pois ela tinha medo de assumir a homossexualidade publicamente.

A tensão de ter que manter o amor em segredo e a relutância de Jessika em contar para a família acabou desgastando o sentimento e a relação acabou. O afastamento durou quatro anos.  “Não nos falamos mais e nos vimos poucas vezes neste período”, conta Mari. Apesar disso, a educadora lembra que nestes rápidos encontros, sentia que ainda nutria um sentimento muito forte por Jessika. Até que em novembro do ano passado, as duas voltaram a conversar, esclareceram alguns maus entendidos e em pouco tempo, retomaram o namoro. Jessika tomou coragem, contou para a família e amigos e as duas puderam enfim viver o amor que sentiam uma pela outra. 

No dia a dia, o casal se divide entre o trabalho, o cuidado com os cães e as tarefas da casa, mas também faz questão de reservar um tempo todos os dias para ficarem juntas, conversar e namorar. Segundo Mari, a receita vem dando muito certo e a convivência não poderia ser melhor. “Quando a gente está em casa, tem que se sentir em paz e eu me sinto assim do lado da Jessika. Eu sinto que ela é o meu lar”, se declara. 

A harmonia deste universo familiar contrasta, muitas vezes, com a reação da sociedade e as duas contam que frequentemente vivem situações que lembram que os tabus e o preconceito ainda cercam o relacionamento homoafetivo e são muito fortes. Na opinião delas, o maior obstáculo é que as pessoas reconheçam o amor, o companheirismo e deixem de ver apenas a questão da sexualidade. Apesar dos desafios, seguem em frente fazendo planos para o futuro. “A gente tem que viver o que a gente é e não se esconder. A vida é tão curta pra viver uma mentira”, filosofa Mari. “Nós somos só amor, não queremos ofender a ninguém com nosso relacionamento. Estamos construindo uma família e não importa como ela é formada, família é onde tem amor”, completa Jessika.



Casadas de “papel passado” e festa com os amigos


A decisão de oficializar a união veio naturalmente. Morando juntas há cinco meses, elas contam que, além do sentimento que as une, as questões legais que envolvem uma união civil e a garantia e a proteção de seus direitos como casal também pesaram na decisão. “Eu nunca tinha pensado em casar com alguém mas com a Jessika foi tudo diferente. Eu sei que eu a amo desde a primeira vez em que ficamos juntas, há sete anos. Eu quero ser responsável por ela e ela por mim. Formamos uma família e queremos oficializar isso”, declara.

A harmonia deste universo familiar contrasta, muitas vezes, com a reação da sociedade e as duas contam que frequentemente vivem situações que lembram que os tabus e o preconceito ainda cercam o relacionamento homoafetivo e são muito fortes. Na opinião delas, o maior obstáculo é que as pessoas reconheçam o amor, o companheirismo e deixem de ver apenas a questão da sexualidade. Apesar dos desafios, seguem em frente fazendo planos para o futuro. “A gente tem que viver o que a gente é e não se esconder. A vida é tão curta pra viver uma mentira”, filosofa Mari. “Nós somos só amor, não queremos ofender a ninguém com nosso relacionamento. Estamos construindo uma família e não importa como ela é formada, família é onde tem amor”, completa Jessika.


 

Casamentos homoafetivos ainda são raros


O casamento de Jessika e Mari foi o primeiro homoafetivo no município de Anchieta. Em São Miguel do Oeste, município de quase 40 mil habitantes, foram registrados apenas dois casamentos homoafetivos, segundo informado por Flávia Nogueira Lagemann, oficial registradora do Cartório de Registro Civil. Os dois casos também são de mulheres que resolveram oficializar a união. Segundo Flávia, o procedimento é idêntico ao dos casais heteroafetivos. 

Flávia lembra que ainda não há uma lei específica para casamento homoafetivo, porém, uma decisão do STF na Adin n. 4277 e na ADPF n. 132, a Circular n. 5 de 29/04/2013 da Corregedoria Geral de Justiça de Santa Catarina e a Resolução n. 175/2013 do Conselho Nacional de Justiça, garante o direito ao casamento de pessoas do mesmo sexo. “Não há lei específica ainda. O que há é o PLS 612/2011 que obteve parecer favorável na CCJ do Senado em 08/03/17. De lá para cá sem novidades, a última movimentação data de 22/05/2017”, revela. “

A oficial registradora explica ainda a diferença entre o casamento e união estável. “A união estável não altera estado civil, a união estável mantém a pessoa como solteira. Mesmo eles tendo a união estável registrada, eles tendo feito a escritura no tabelionato e trazido aqui para registrar, mesmo assim, a lei diferencia. O casamento é um instituto por excelência, porque ele estabelece direito em relação a filhos que forem adotar ou não, ele estabelece ordem direta de sucessão, ou seja, o marido ou mulher casados, ele passa a ser herdeiro. Se é só convivente vai entrar na linha de sucessão e divide com pai, com mãe”, explica. “Tem uma utopia legislativa que a lei deve facilitar a conversão em casamento. E já diz isso por quê? Porque são institutos diferentes sim, conferem direitos diferentes. O casamento é absoluto. O INSS, mediante simples certidão de casamento, já defere pensão por morte. Se é união estável, já vai pedir provas”, complementa.



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