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Uma história de vida construída com as marcas do desenvolvimento

Convidamos você para conhecer um pouco mais sobre a construção histórica de São Miguel do Oeste, sob a contribuição da entrevistada Esla Baldissera, que recebeu nossa reportagem com muitas recordações bonitas do desenvolvimento do município, que completou nesta semana,64 anos de emancipação

Especial - 16/02/2018 09:05

Em pouco mais de 40 minutos de conversa, Elsa Cesca Baldissera, de 83 anos, mais de 70 deles vividos em São Miguel do Oeste, recebeu a reportagem do Jornal Gazeta em sua casa e com uma ávida memória, enriquecida de detalhes, resgatou parte do desenvolvimento do município de São Miguel do Oeste, sob sua ótica. O que possibilitou um belo resgate de sua trajetória de vida e também da história de desenvolvimento do município polo do Extremo-oeste, que completou 64 anos de emancipação político administrativa nesta semana, dia 15. 

Ainda jovem, com oito anos, ela saiu do Rio Grande do Sul com a família, que inicialmente fixou morada na atual comunidade de linha Famoso, em Descanso. Aproximadamente três anos depois, em 1946, optaram por residir na Vila Oeste, que mais tarde passaria a ser São Miguel do Oeste. “Tinha só umas 20 casinhas na época”, relembra.

Com a mãe falecida logo nos primeiros anos de vida, Elsa foi criada pela irmã Adélia Cesca e pelo cunhado, Waldemar Rangrab. A família trabalhava com madeireira e viu na região uma oportunidade de recomeçar a vida. Contava muito com o apoio do pioneiro e também fundador, Padre Aurélio Canzi, que auxiliava a família financeiramente, sempre que precisavam. “Quando dava enchente, que nós podia mandar a madeira (para comercializar), em agradecimento, meu pai comprava bombacha, batina, e vestia o padre Aurélio”, lembra ao citar a proximidade da família com o Padre.

Em um período em que mulheres tinham dificuldade de conquistar a independência, Elsa quis estudar, algo que custava muito dinheiro à época pois precisava de deslocamento a grandes centros. Incentivado por Padre Aurélio, Waldemar permitiu que a filha fosse estudar, inclusive emprestando recursos para isso. Elsa formou-se técnica em contabilidade e decidiu retornar para São Miguel do Oeste, onde conheceu o esposo Daniel Baldissera, com quem teve quatro filhos.

Ela comenta a reportagem do jornal, ainda com riqueza de detalhes que o encontro do casal ocorreu graças a um batizado, pois foram convidados para serem padrinho e madrinha da criança. Ela relembra que não esperou a data para conhecer Daniel. Foi até o comércio do futuro marido e se apresentou. “O apelido dele era ‘cabeção da esquina’, e ele tinha comércio ali onde hoje tem o Serginho (Lanches). Um dia antes de ir batizar que conheci o Daniel. Entrei na loja e pedi quem era o Daniel. Uma moça que trabalhava lá disse ‘aquele sentado lá no canto’. Fui lá e me apresentei e deu certo (brinca), e em 1957 casamos”, relembra.

“Era pouco, mas o suficiente”

Questionada sobre como era viver naquela época, ela destaca que ela e o esposo tinham um comércio onde se ‘vendia de tudo um pouco’, desde alimentos até roupas e utensílios para a casa e a lavoura. Os mantimentos eram buscados em viagens a São Paulo. Segundo Elsa, a vida era difícil no início, mas as pessoas se satisfaziam com pouco. Ela relembra que na juventude, o divertimento era se reunir em grupos, com gaita e violão, algo simples, mas que garantia o entretenimento da juventude. Comenta ainda que com o desenvolvimento da cidade sua família se envolveu na fundação do Clube Comercial, que também possibilitou festas maiores e trazia artistas de renome nacional na época, como shows dos cantores Vanusa e Agnaldo Rayol, dentre outros, no clube.


Família e a ligação com a política

A vida de Elsa desde o início esteve entrelaçada a política do município. Ela foi criada por Waldemar Rangrab, personagem conhecido da histórica migueloestina, tendo sido vereador e prefeito, e hoje dá nome a uma das principais ruas do município em sua homenagem. Quis o destino que Gilmar, um dos quatro filhos do casamento com Daniel Baldissera, fosse também prefeito, incentivado pelo tio Leolino Baldissera, que também foi vereador e prefeito. Principal incentivador, Leolino pôde ver a vitória de Gilmar Baldissera, o Gica, nas urnas em 1996, mas não o viu assumir a Prefeitura, pois faleceu em novembro daquele ano. 


O sonho do hotel e o amor por São Miguel do Oeste

Dentre os diversos episódios históricos apontados ela comenta que o esposo Daniel, possuia comércio e também trabalhou com granja de suínos, mas o grande sonho era ter um hotel. Para realizar, vendou a granja e adquiriu os terrenos necessários, comprou material direto da fábrica e construiu o Hotel Solaris, um projeto visionário na época. Para comprar os terrenos, ouviu proposta do proprietário que morava fora do município, ficou de analisar e ligar às 19h. “Em casa e ansioso o Daniel quis ligar antes, mas eu não deixei, disse pra ele, liga só perto das 19 horas”, relembra. E faltando pouco para o horário, ele ligou e o negócio foi concretizado.

Elsa recorda que o marido questionou ao proprietário o porquê dele ter fechado o negócio, pois tinha o conhecimento de propostas anteriores de outros empresários que não foram aceitas. “Meu marido perguntou porque ele aceitou. E ele disse ‘porque o único pontual foi você’. Ele prezava muito pela pontualidade, pela palavra”, relembra.

O hotel começou a ser construído em 1989, com um projeto para o futuro do município. “Meu marido não pensava para agora, pensava sempre para frente. E ele sempre dizia que o dinheiro que ele tinha ganho aqui, ele ia empregar em São Miguel do Oeste. E foi o que fez. A única coisa que nós temos fora é um apartamento que a Jaque (Filha) mora em Porto Alegre. O resto foi tudo plantado aqui. Isso nos orgulha, a gente foi fiel. Meu cunhado também investiu, os filhos assumiram e investiram. A gente tem orgulho da família. Porque teve famílias na época que começamos, que eram mais abastadas que nós e hoje não têm mais nada”, comenta emocionada.

Sobre o futuro do município, Elsa reforça que hoje, São Miguel do Oeste possui boas condições para quem mora nele, mas que a atenção para ‘deixar a cidade cada vez mais bonita’, é fundamental,  e que isso, consequentemente irá atrair mais pessoas para morar nela bem como melhorarar qualidade de vida dos que aqui já vivem. 



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