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SOLDADINHO PRIMATA

Opinião - 23/11/2018 08:57

Num lugar qualquer, longe da civilização, havia um acampamento de primatas com 105 indivíduos, sendo 57 na cor branca e 47 na cor parda. Só um era diferente: era dourado, reluzente, bonito. Sorria para tudo e para todos. Prometia reformar o lugar qualquer num paraíso para todos. O único defeito do diferente era quando soltava a voz. Fazia cinco vozes diferentes, portanto difícil identificar de onde partia o rugido. Apenas uma característica o identificava: ao rugir, via de regra, vomitava bobagens que causavam grande impacto.

Certo dia, o acampamento foi dado de presente ao primata maior, o diferente, chefe do grupo branco conhecido como deslumbrado, que ficou maravilhado e eufórico. Logo colocou tudo em ordem unida em frente ao acampamento, de onde conseguiria ver todos os outros brinquedos, entre os quais uma pequena árvore florida que estava postada na entrada de uma grande cavidade existente numa frondosa árvore.

A pequena árvore florida era muito bonita. Tinha ramos erguidos em arco que cobriam a copada, e um dos troncos dobrado para trás, tão dobrado que ficava escondido debaixo dos ramos em arco.

O primata diferente, aquele reluzente, logo se encantou pela arvorezinha, pensando que tal como ele, a arvorezinha tão linda, tivesse um só tronco. 

Certo dia, o primata diferente e reluzente, ao arrumar seus brinquedinhos, que iam de arcos e flechas a tacapes e boleadeiras, deixou que um primata caísse para fora do acampamento. Então, o primata reluzente e deslumbrado saiu correndo a procurar pelo primata desviado. Pouco tempo depois passaram outros primatas e um deles viu o fugitivo e exclamou: “Um primata militar! Um primata militar”!

Será que alguém, propositadamente, o deixou fugir porque ele é diferente? E o que deverá ser feito com os diferentes? Seria necessário, pelo menos, mais que os 57 para fazer uma boa batalha, disse um dos brancos. 

Tenho uma ideia, disse aquele que avistou o fugitivo. Vamos colocar os que faltam para uma boa batalha numa jangada e manda-los dar uma volta, primeiro rio abaixo e depois rio acima. Se chegarem vivos de volta, servirão para as batalhas que se aproximam. 

E assim fizeram. Construíram uma jangada, bem grande e pesada, colocaram os deslumbrados a bordo e a soltaram rio abaixo, para navegar na água que corria pela sarjeta. 

Apoiado em sua única perna, em “ombro armas”, o diferente, deslumbrado mor, soldadinho de chumbo, procurava não cair da jangada. Voltava todos os seus desejos e pensamentos para a linda arvorezinha florida, que talvez, encoberta pelo deslumbramento, nunca mais voltasse a vê-la.

A água ganhou mais correnteza e a jangada andou com maior força. A água caía em cascata desde o STF até o lago da primeira instância. O deslumbrado tentou se equilibrar mas a jangada deu um salto, caiu da cascata, virou e o deslumbrado afundou. 

Mal o deslumbrado tinha chegado ao fundo do Rio, apareceu um enorme tubarão chamado Bertolt Brecht, vulgo aliado, e abriu a enorme bocarra para salvar o deslumbrado soldadinho de chumbo. Mesmo assim, o deslumbramento não permitiu que esboçasse qualquer reação para salvar sua vida, gastando os últimos instantes para pensar em sua arvorezinha florida que ficara próxima do acampamento.

Passou-se longo tempo, e de repente apareceu uma nova operação, daquelas que salvam a honra de qualquer acampamento, e o tubarão foi pescado pelos primatas dissidentes do acampamento. Ao limpar o tubarão, o soldadinho deslumbrado foi encontrado, porém já estava morto. 

A ESCOLINHA

A escolinha do Zezinho é um espetáculo. A parte pedagógica está entregue ao professor General de Campos, titulado na ANT – Academia Nacional da Truculência, nos EUA – Educandários Únicos Aceitos. Tem como metas principais o respeito à hierarquia e à disciplina.

Os alunos, ao chegar, precisam bater continência ao diretor pedagógico e ao diretor administrativo. O uniforme consiste em calças verde oliva, gandola da mesma cor e casquete. 

Antes do início das aulas, após a execução dos hinos, uma sessão de ordem unida de 30 minutos. Após a sessão, em forma, sem cadência, ordem unida, classe por classe, os recrutas deverão rumar para suas salas, entrando em fileiras a partir da direita, tomando seus lugares previamente determinados.

O setor administrativo, dirigido por Sermoro Rei, consiste em duas salas amplas, com muitos funcionários. A maior, denominada quartel, tem na hierarquia e na disciplina seu principal fundamento. Todos os funcionários pertencem ao grupo subalterno, já que ao oficialato são reservados os cargos de nível superior.

A segunda sala, denominada Delegacia, ocupa-se da fiscalização das atividades do funcionalismo e do corpo docente, para evitar qualquer desvio de conduta e a criteriosa obediência ao planejamento das operações. 

O resultado planejado e que será perseguido diuturnamente, e a formação de um contingente de autômatos, capaz de caminhar e obedecer, o que é julgado mais que suficiente para uma população que escolheu um nada para dirigir seu destino. 


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