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Com força para decidir o destino de governos, centrão agora deve agir nos bastidores

Bloco de parlamentares que consegue mudar rumo de votações enfrenta desgaste pelo fisiologismo

Câmara dos deputados - 01/06/2019 20:14


Nem à esquerda, nem à direita: centrão, nome concedido na Constituinte de 1988, teve seu auge no processo do impeachment


O termo centrão virou palavrão no dialeto político de Brasília. O bloco informal, lembrado pelo fisiologismo, é alvo de artilharia distribuída pelo Planalto e detonada por eleitores nas redes sociais e nas manifestações do último domingo. O bombardeio acendeu o alerta nos partidos de centro, que passaram a refutar atuação conjunta, o que não deve ser confundido com rompimento. O grupo, ciente de sua influência, seguirá unido nos bastidores, impondo obstáculos à agenda governista.

Pelo menos oito siglas e cerca de 230 deputados compõem o bloco, que teve seu auge no processo que culminou com o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), organizado por Eduardo Cunha (MDB-RJ), na época presidente da Câmara. O poderio seguiu durante o governo de Michel Temer, mas estremeceu após o resultado das últimas eleições. 

 Antigos caciques não conseguiram novos mandatos. O recado das urnas, com a renovação de quase metade do parlamento, deixou a articulação do grupo em compasso de espera. Afinal, bater de frente com o capital político de Jair Bolsonaro, defensor da “nova política”, não era o mais indicado no momento.

Mas as “caneladas” protagonizadas pelo Planalto na relação com o Congresso trouxeram novo ânimo a antigos e novos centristas. Sem um canal de diálogo para elencar demandas, o bloco se reorganizou rapidamente, sendo responsável pelas principais derrotas do governo.

— A gestão Bolsonaro, ao não assumir o papel de liderança, abre espaço para que surjam novos atores. Esse é o espaço que o centrão está ocupando. A política não aceita vácuo. O bloco, com o Rodrigo Maia (DEM-RJ, presidente da Câmara), está coordenando o processo — opina Andréa Marcondes, doutora em coalizões de governo e professora da Unicamp.

Ninguém quer assumir que faz parte do grupo

Nem tudo são flores para o centrão. Na votação sobre o destino do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) na Câmara, no dia 22, veio um primeiro sinal de deserção. O PSD foi em direção oposta à orientação do bloco, e votou contra a retirada da estrutura das mãos de Sergio Moro, ministro da Justiça. Mesmo assim, órgão acabou voltando à área econômica, como queria o bloco parlamentar para afrontar o Planalto.

Há deputados e partidos que não mostram apreço por serem identificados como integrantes do grupo. O presidente da DEM e prefeito de Salvador, ACM Neto, afirmou na quinta-feira que a legenda “nunca será centrão”. Em outra frente, apesar de manter três ministros na Esplanada, não se considera governista. Publicamente, o líder do partido na Câmara, Elmar Nascimento (BA), nega que o DEM integre o bloco. 

 

— Se existia um centrão, nos termos pejorativos citados pela imprensa e nas redes sociais, ele foi implodido por Rodrigo Maia – disse Elmar em referência à derrota imposta pelo presidente da Câmara ao deputado Rogério Rosso (PSD-DF), em 2016, então candidato do centrão ao comando da Casa e ungido por Eduardo Cunha.

Apesar de refutar a pecha, Elmar é considerado integrante do núcleo duro do centrão, ao lado de Arthur Lira (PP-AL) e Aguinaldo Ribeiro (PP-PB).

Outra legenda que busca se dissociar do agrupamento fisiológico é o PL (ex-PR), que, além de exibir novo nome, também apresentou projeto alternativo de reforma da Previdência. O texto, que ainda será avaliado pela comissão especial que discute o tema na Câmara, reduz a previsão de economia do governo de R$ 1,2 trilhão para até R$ 700 bilhões em 10 anos.

Governo quer garantir apoio para votações

Publicamente, Bolsonaro mantém o discurso contra o que chama de “toma lá dá cá”, a troca de apoio político por cargos e benefícios aos parlamentares. Nos bastidores, há a tentativa de aproximação com integrantes do centrão. Líderes de partidos do grupo contam que foram procurados pelo governo com oferta de R$ 40 milhões em emendas extras até 2020, ano de eleições municipais, como incentivo para a aprovação da reforma da Previdência.

Parlamentares ouvidos pela reportagem disseram que não devem aceitar a oferta, já que voltou às mãos da Câmara a proposta de emenda à Constituição (PEC) do orçamento impositivo, que reduz o poder do governo sobre a destinação de verbas. Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o texto foi relatado por Aguinaldo Ribeiro, justamente um dos líderes do centrão. O parecer já foi aprovado e agora vai a plenário.

 

Fonte: Por GaúchaZH
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